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Marcas brasileiras precisam se fazer mais conhecidas na Europa

Foto: Rarrarorro/Gety Images

“Nada mais invisível do que o óbvio ululante”, dizia Nelson Rodrigues. Lembrei-me da frase após terminar, nesta terça-feira (28), uma apresentação para executivos aqui em Bruxelas, cujo foco era o acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia que entra em vigor em caráter provisório nesta sexta-feira (1).

 

No início da apresentação mostrei na tela as marcas de vinte empresas brasileiras de forte atuação internacional. Algumas delas com posição de liderança global. Perguntei quantos dos nomes ali mostrados os presentes conheciam. Apenas uma pessoa identificava duas empresas, várias reconheciam uma marca e outras ainda, nenhuma.

 

Causou surpresa a informação de que o Brasil é responsável por cerca de 35% de todo o PIB da América Latina e por mais de 70% do PIB do Mercosul. Também foi novidade a menção ao país como exportador de petróleo.

 

O mesmo aconteceu quando lembrei que nosso Banco Central abriga confortável volume de reservas cambiais que supera os US$ 367 bilhões, patamar que permite uma boa camada de proteção para as finanças nacionais em casos de turbulências.

 

Mais: as vendas para governo (public procurement), claramente previstas no acordo Mercosul-EU e um de seus pilares, embora representem uma enorme avenida de oportunidades para empresas europeias ainda não parecem percebidas em todo o seu potencial.

 

Organizações brasileiras interessadas em usufruir da jornada que começa em 1º de maio e que reduzirá gradativamente as tarifas para ambos os lados do Atlântico só têm a ganhar se construírem posicionamentos e narrativas em sintonia com a realidade europeia.

 

Além da entrada em vigor do acordo Mercosul-UE, o comércio internacional como um todo ganha complexidade e passa por profundas transformações, em diferentes formatos. São componentes dessa realidade as medidas protecionistas (que podem ser barreiras tarifárias ou não tarifárias), as suspeitas de dumping e as acusações de concorrência desleal. A eles se juntam agora os novos desafios logísticos impostos pela guerra no Irã, que tornou o estreito de Ormuz uma incógnita talvez permanente.

 

Mais do que nunca, portanto, navegar nesse ambiente exige olhar e ação cirúrgicos, tornando indispensável o efetivo conhecimento das regras do jogo.

 

Na quinta-feira (23), por sinal, um grupo de empresas brasileiras se reuniu em Bruxelas com representantes da Comissão Europeia para seminário e troca de informações sobre o acordo, um tipo de prática que precisa ser repetido e tornar-se um hábito.

 

Na verdade, o bloco tem neste momento uma agenda cheia. Além das inquietações geradas desde o ano passado em relação ao aumento das tarifas comerciais nas exportações aos Estados Unidos, convive-se com a decisão de Washington de frear suas responsabilidades no âmbito da OTAN e, portanto, desobrigar-se de apoiar a Europa em caso de ameaça militar.

 

Isso já levou a uma decisão de Bruxelas de levar os países membros a investirem mais em defesa e segurança, movimento esse já iniciado na prática.

 

Outra prioridade diz respeito a crise energética nascida com o conflito no Oriente Médio, que já tornou 24 bilhões de euros mais caras as importações de petróleo, gás e combustíveis fósseis do continente. O plano AccelerateEU, anunciado no dia 22 de abril pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pretende iniciar um novo capítulo nesse campo.

 

Trata-se de uma iniciativa destinada a impulsionar a segurança energética e reduzir a dependência de combustíveis fósseis estrangeiros. Ele tem, na verdade, papel complementar ao REPowerEU, de dois anos atrás, que focava mais especificamente na eliminação da dependência dos combustíveis russos sancionados após a invasão da Ucrânia.

 

Segundo Ursula van der Leyen, AccelerateEU pretende “trazer medidas de apoio imediatas e mais estruturais aos cidadãos e empresas europeus”, o que inclui o plano de armazenamento coordenado de gás entre os paises membros.

 

As medidas preveem ainda um aumento na produção a partir de fontes renováveis. O objetivo é elevar o atual nível de geração de energia limpa na região, hoje superior a 50% do total. Foi esse pano de fundo que levou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, poucos dias atrás em viagem a Alemanha, a defender os biocombustíveis brasileiros como alternativa para o continente.

 

Nunca a Europa precisou tanto de novos parceiros e soluções, complementares às suas capacidades. O Mercosul, de forma geral, e o Brasil, em especial, estão em posição privilegiada para isso — desde que saibam jogar o jogo.

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