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BLOG DO PALACIANO

O PP virou vítima do próprio tamanho?

Foto: ContilNet

O anúncio do prefeito de Cruzeiro do Sul, Zequinha Lima (PP), de que apoiará Alan Rick (Republicanos) na disputa pelo governo, chamou atenção pelo peso do município, o segundo maior colégio eleitoral do Acre. Mas o episódio também ajuda a enxergar um comportamento que vem se repetindo dentro do Progressistas há alguns anos. Curiosamente, os maiores gestos de infidelidade enfrentados pelo partido não partiram da oposição. Vieram de dentro de casa.

 

A sequência começou ainda em 2020. Naquele momento, o PP tinha um candidato competitivo à Prefeitura de Rio Branco, Tião Bocalom. Mesmo assim, Gladson Cameli decidiu apoiar a então prefeita Socorro Neri, que disputava a reeleição por outra legenda, o PSB. A escolha expôs que, dentro do próprio grupo, a unidade nem sempre era prioridade.

 

Dois anos depois, a resposta veio pelo mesmo caminho. Já eleito prefeito da capital pelo PP, Bocalom decidiu apoiar a candidatura de Sérgio Petecão (PSD) ao governo, e não a reeleição de Gladson Cameli. A divergência foi pública, atravessou toda a campanha e mostrou que o partido convivia com lideranças fortes, mas nem sempre alinhadas entre si.

 

Em 2024, a história ganhou outro capítulo. O PP decidiu lançar Alysson Bestene para disputar a Prefeitura de Rio Branco e o ambiente se tornou incompatível com a permanência de Bocalom na legenda. O prefeito acabou deixando o partido e se filiou ao PL. Meses depois, a política produziu uma de suas ironias mais conhecidas. Alysson retirou a candidatura, aceitou disputar a vice na chapa de Bocalom e ambos receberam o apoio do governador Gladson Cameli.

 

Agora surge um novo episódio. Zequinha Lima continua filiado ao PP, mas anunciou apoio à pré-candidatura de Alan Rick ao governo. Não se trata de um vereador isolado nem de uma liderança regional de pouca expressão. Cruzeiro do Sul é o segundo maior colégio eleitoral do Acre e Zequinha é um dos prefeitos mais influentes do interior. Seu posicionamento inevitavelmente produz reflexos dentro do próprio partido.

 

Seria um erro atribuir todos esses episódios a disputas pessoais, tem algo a mais acontecendo. O PP cresceu muito nos últimos anos. Conquistou o governo, ampliou sua presença nas prefeituras e passou a reunir lideranças que possuem trajetória, bases eleitorais e projetos próprios. Quanto maior o partido, maior também a dificuldade de fazer com que todos caminhem na mesma direção.

 

O sociólogo alemão Norbert Elias observava que grupos de poder funcionam como redes de interdependência. Ninguém controla completamente os demais participantes da rede, sobretudo quando eles acumulam força política própria. O equilíbrio depende de negociação permanente. Quando esse equilíbrio se rompe, cada liderança passa a agir de acordo com seus próprios interesses, mesmo permanecendo na mesma organização.

 

É difícil não enxergar esse processo no PP acreano. Gladson Cameli continua sendo o principal nome do grupo, mas isso não significa que prefeitos, parlamentares e dirigentes municipais deixem de fazer suas próprias contas. Eles observam pesquisas, conversam com suas bases e procuram identificar quem oferece melhores perspectivas para o próximo ciclo político.

 

Isso ajuda a entender por que episódios como o de Zequinha Lima deixam de ser casos isolados. Eles demonstram uma característica do próprio partido. O PP construiu uma máquina política robusta, mas essa mesma estrutura passou a abrigar lideranças grandes o suficiente para fazer escolhas próprias, inclusive quando essas escolhas contrariam o projeto do Palácio Rio Branco.

 

Ainda é cedo para saber quais serão os desdobramentos desse movimento. As alianças podem mudar até as convenções. No entanto, uma coisa parece evidente, se no passado, o principal desafio do PP era enfrentar os adversários, hoje parte do esforço está voltada para manter unido um grupo que cresceu, ganhou musculatura e passou a conviver com diferentes centros de poder. É o preço que os grandes partidos acabam pagando quando se tornam grandes demais.

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