Durante os anos em que a Frente Popular governou o Acre, era relativamente comum encontrar prefeitos petistas espalhados pelo estado. O PT comandava o governo estadual e também exercia forte influência sobre as administrações municipais, formando uma rede política que ajudava a sustentar o projeto construído a partir do final da década de 1990. O cenário atual é praticamente o oposto. O Progressistas se transformou na principal força municipalista do Acre, acompanhado por partidos que integram a base de sustentação do governo estadual. Para um petista que pretende disputar uma vaga no Senado neste ano, isso produz uma situação peculiar, para percorrer o estado e dialogar com quem hoje está no poder, Jorge Viana precisa bater à porta de prefeitos que pertencem justamente ao campo político que derrotou seu grupo.
Foi o que aconteceu novamente nesta semana. Em Capixaba, Jorge visitou o prefeito Manoel Maia, do União Brasil. Em Plácido de Castro, sentou-se para conversar com Camilo Silva, do Progressistas. Nos dois encontros apareceu o elemento que já virou uma espécie de marca pessoal da sua pré-campanha, o café preparado pelo próprio ex-governador. O gesto poder ser tratado como curiosidade folclórica, quase uma excentricidade de campanha, mas diz algo mais interessante sobre a estratégia política que Jorge vem construindo desde que decidiu voltar ao embate eleitoral.
Ao servir café para prefeitos da direita acreana, Jorge oferece mais do que uma bebida. Ele cria um ambiente de conversa num momento em que a política brasileira parece ter desaprendido a conversar. A cena tem um valor simbólico porque rompe, ainda que temporariamente, com uma lógica que se consolidou nos últimos anos, segundo a qual adversários devem se comportar como inimigos permanentes. Enquanto boa parte da política nacional continua organizada em torno do conflito, Jorge tenta construir uma imagem associada à ideia de diálogo e pragmatismo institucional.
Não é, nem de longe, ingenuidade ou um repentino desaparecimento das diferenças ideológicas. Jorge sabe que está visitando prefeitos que, em sua maioria, estarão em palanques diferentes do seu durante a eleição. Os prefeitos também sabem disso. O que existe ali é o exemplo de uma realidade muito presente nos municípios acreanos, a administração pública raramente funciona dentro das fronteiras rígidas que dominam os debates das redes sociais. Quem governa uma cidade depende de recursos federais, convênios, emendas parlamentares e relações institucionais permanentes. Nesse ambiente, o antagonismo ideológico costuma encontrar limites impostos pela própria necessidade de governar.
O encontro com o prefeito Camilo Silva talvez tenha sido o exemplo mais ilustrativo dessa dinâmica. Filiado ao Progressistas, partido da governadora Mailza Assis e principal legenda do grupo governista, Camilo aproveitou a visita para lembrar obras realizadas durante os governos de Jorge Viana e, ao mesmo tempo, defender os investimentos do governo Lula em seu município. O gesto chama atenção porque desmonta uma narrativa cada vez mais comum na política acreana, segundo a qual qualquer aproximação com o governo federal precisaria ser escondida por prefeitos ligados à direita. A realidade dos municípios costuma ser menos ideológica do que o discurso dos palanques.
Há também um componente de memória política nessa movimentação. Jorge talvez seja o único nome da esquerda acreana que ainda consegue circular com relativa desenvoltura entre lideranças conservadoras sem provocar reações automáticas de rejeição. Parte disso decorre de sua trajetória. Depois de ter sido prefeito, governador, senador e presidente da Apex, ele construiu relações institucionais que atravessaram diferentes ciclos políticos. Mesmo quem discorda de suas posições reconhece sua relevância na história recente do estado. Essa condição lhe permite algo que outros quadros petistas teriam dificuldade de fazer, o de entrar em ambientes politicamente hostis sem ser tratado como um inimigo.
Talvez seja cedo para saber se essa estratégia produzirá dividendos eleitorais. O Acre continua sendo um estado majoritariamente conservador, e ninguém se elege apenas colecionando fotografias ao lado de prefeitos. O que já é possível perceber, porém, é que Jorge parece ter identificado uma brecha num ambiente político marcado pelo excesso de polarização. Enquanto muitos atores investem na ampliação dos conflitos, ele aposta na construção de pontes. O café, nesse contexto, é mais do que marketing, é linguagem política. É uma forma simples de dizer que, apesar das divergências, ainda existe espaço para sentar à mesa e conversar.
E possivelmente resida aí o aspecto mais curioso dessa pré-campanha. Num Acre onde quase todos os caminhos municipais passam hoje por partidos de direita, Jorge Viana parece ter concluído que a única forma de voltar a ser competitivo é justamente conversando com aqueles que, em tese, deveriam ser seus adversários naturais. Isso não faz dele um encantador de serpentes. Faz dele um político experiente o suficiente para entender que, na política, as relações raramente cabem nos rótulos que dominam o debate público.
















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