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BLOG DO PALACIANO

O Acre elegeria um Jones Manoel? E um Elias Jabbour?

Foto: Reprodução Instagram

Há uma pergunta que está permeando minha mente esses dias e que talvez nos ajude a entender um pouco da política acreana atual: o Acre elegeria alguém como Jones Manoel?

 

A resposta mais intuitiva é não. Mas talvez a pergunta esteja pequena demais.

 

Talvez a questão correta seja outra, se o Acre teria espaço político para figuras como Jones Manoel, Elias Jabbour, Glauber Braga ou Erika Hilton.

 

A resposta continua sendo complexa.

 

O Acre de hoje é um dos ambientes políticos mais conservadores do Brasil. A direita controla o governo estadual, domina a maioria das prefeituras, possui ampla força na bancada federal e construiu uma hegemonia eleitoral que já atravessa mais de uma eleição consecutiva. O bolsonarismo é a preferência eleitoral esmagadora do estado. Tornou-se uma identidade política para parcelas significativas do eleitorado.

 

Nesse cenário, nomes como Jones Manoel ou Elias Jabbour enfrentariam dificuldades muito claras.

 

Jones construiu sua projeção nacional defendendo posições marxistas de forma aberta, sem tentar suavizar conceitos para torná-los mais palatáveis eleitoralmente. Elias Jabbour, por sua vez, tornou-se uma das principais referências brasileiras em debates sobre desenvolvimento econômico, planejamento estatal e experiência chinesa. Nenhum dos dois conversa naturalmente com o senso comum predominante no eleitorado acreano atual.

 

Mas isso não significa irrelevância.

 

Existe uma diferença importante entre ter votos e ter influência.

 

A política acreana costuma produzir uma ilusão curiosa. Como a direita venceu sucessivas eleições nos últimos anos, criou-se a impressão de que qualquer pensamento à esquerda desapareceu do estado. Não desapareceu. Perdeu centralidade eleitoral, o que é diferente.

 

O Acre continua abrigando sindicatos, movimentos sociais, organizações estudantis, setores da universidade, servidores públicos organizados e grupos ligados à tradição da esquerda amazônica. Esse campo é menor do que já foi. Mas continua existindo.

 

Nesse ambiente, figuras como Jones Manoel ou Elias Jabbour provavelmente encontrariam espaço para produzir debate e disputar narrativas.

 

A situação de Glauber Braga talvez fosse diferente.

 

Glauber pertence a uma tradição mais combativa da política institucional. É alguém que opera no conflito direto, na denúncia, na exposição pública dos adversários e na disputa permanente de posições. Curiosamente, esse perfil poderia encontrar mais espaço eleitoral no Acre do que muitos imaginam.

 

O eleitor acreano gosta de políticos que demonstram enfrentamento. A direita local compreendeu isso muito bem. Boa parte das lideranças conservadoras que cresceram nos últimos anos construiu sua imagem justamente a partir da ideia de combate a adversários políticos e culturais.

 

O problema para Glauber não seria o estilo. Seria o conteúdo.

 

O método talvez encontrasse ressonância. As bandeiras defendidas por ele provavelmente não.

 

Já o caso de Erika Hilton é ainda mais revelador.

 

Não porque ela seja de esquerda. Mas porque sua trajetória reúne elementos que enfrentam resistências específicas em ambientes conservadores. Erika não é só uma parlamentar progressista. Ela também se tornou um símbolo de pautas identitárias que frequentemente aparecem no centro das guerras culturais contemporâneas.

 

Num estado onde as igrejas evangélicas exercem forte influência política e social, sua trajetória provavelmente encontraria um nível de resistência muito superior ao enfrentado por nomes como Jones Manoel ou Elias Jabbour.

 

Mas há uma armadilha nessa análise.

 

Ela parte da fotografia atual e ignora a história.

 

O Acre foi governado pelo PT durante duas décadas. Formou uma geração inteira de lideranças de esquerda. Produziu sindicatos fortes, movimentos sociais organizados e uma identidade política própria, fortemente ligada às lutas ambientais e dos trabalhadores rurais.

 

A mesma sociedade que hoje entrega votações expressivas para candidatos conservadores já entregou vitórias sucessivas para a Frente Popular.

 

A política muda mais rápido do que costumamos admitir.

 

O que torna a pergunta ainda mais interessante.

 

Talvez Jones Manoel, Elias Jabbour, Glauber Braga ou Erika Hilton não fossem eleitos hoje no Acre. Talvez sequer chegassem perto disso.

 

Mas é igualmente improvável que fossem figuras irrelevantes.

 

Estados pequenos têm uma característica peculiar. Quem produz debate consistente, provoca reações e ocupa espaços de discussão costuma ganhar visibilidade rapidamente. Mesmo quando representa posições minoritárias.

 

Pierre Bourdieu observava que a disputa política não acontece apenas pelo controle das instituições. Ela também ocorre pela capacidade de definir quais temas serão discutidos. Muitas vezes, grupos minoritários influenciam a agenda pública sem jamais se tornarem maioria eleitoral.

 

Talvez esse fosse o destino desses personagens caso fossem acreanos.

 

Não necessariamente ocupar o Palácio Rio Branco ou uma cadeira no Congresso Nacional.

 

Mas obrigariam seus adversários a responder perguntas incômodas.

 

E na política, isso costuma ser uma forma de poder muito mais relevante do que parece à primeira vista.

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