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O desgaste de Joabe Lira já não cabe mais nos bastidores: uma crise que expõe uma Câmara fragmentada e sem comando político

A crise aberta na Câmara de Rio Branco nesta semana não tem tanta relação assim com viagens, cargos ou diárias, como os discursos fazem parecer. O que apareceu no plenário foi uma disputa de autoridade. E isso costuma ser mais sério. Quando vereadores aliados começam a acusar publicamente o presidente da Casa de não cumprir acordos e operar de forma seletiva, o problema não pe mais administrativo, é político.

 

Joabe Lira entrou na presidência da Câmara tentando construir a imagem de gestor técnico, alguém preocupado com contenção de gastos, reorganização financeira e modernização administrativa. A entrega da nova sede do Legislativo ajudaria nessa narrativa. O discurso da austeridade também conversa bem com o eleitor conservador de Rio Branco, especialmente num ambiente político em que “combate a privilégios” virou linguagem obrigatória da direita.

 

O problema é que política não funciona só na lógica da gestão. Câmara Municipal vive de acordo, reciprocidade e distribuição de espaços. Max Weber tratava disso quando falava da dominação baseada na legitimidade cotidiana. O poder se sustenta menos pela caneta e mais pela capacidade de manter reconhecimento interno. Quando essa confiança começa a se quebrar, o cargo continua existindo, mas a autoridade vai embora aos poucos.

 

E foi exatamente isso que apareceu nos discursos de Bruno Moraes, Leôncio Castro, Raimundo Neném e até do líder do prefeito, Márcio Mustafá. Não eram vereadores de oposição fazendo barulho externo. Eram parlamentares da engrenagem da própria Casa dizendo, em público, que não se sentem contemplados pela condução do presidente.

 

O episódio das exonerações ligadas ao grupo de João Paulo Silva agravou ainda mais esse ambiente. Na política acreana, cargos não são apenas cargos. Funcionam como extensão de alianças e manutenção de grupo. Quando mexidos sem construção prévia, o desgaste é inevitável. Principalmente numa Câmara pulverizada, um ambiente onde ninguém governa sozinho.

 

O pronunciamento de Joabe nas redes, tentando deslocar o debate para “privilégios”, “viagens” e “problemas reais da população”, faz sentido como comunicação externa. Ele conversa diretamente com o eleitor comum, que tende a enxergar embates internos da Câmara como disputa por benefícios. É uma estratégia defensiva compreensível. Ainda mais num Acre em que o discurso moralizante encontra terreno fértil desde o avanço do bolsonarismo.

 

Mas o vídeo também revelou outra coisa, Joabe pode ter entendido a crise mais como disputa narrativa do que como perda de sustentação política. E talvez esteja aí seu principal risco. Porque crises institucionais raramente explodem de uma vez. Elas vão corroendo relações até produzir isolamento.

 

A sessão seguinte, encerrada em menos de 40 minutos e num clima artificialmente pacificado, não significa que a crise arrefeceu. Significa apenas que todos perceberam o tamanho do desgaste público.

 

A Câmara de Rio Branco expôs um problema típico da política acreana recente, grupos eleitos sob o mesmo campo ideológico, mas sem unidade política real. A direita acreana venceu eleições, ocupou espaços e consolidou hegemonia eleitoral. Só que isso não eliminou disputas internas. Apenas deslocou a guerra para dentro do próprio campo conservador.

 

E quando a briga deixa os corredores e sobe à tribuna, normalmente é porque o desgaste já vinha se acumulando há algum tempo.

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