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Crise financeira acelera consolidação no agro e abre janela para aquisições

Setor sucroenergético tem mais oportunidades para fusões e aquisições • Foto: Imagem gerada por IA

Depois de dois anos de forte aperto financeiro, o agronegócio brasileiro pode entrar em uma nova fase de consolidação. Empresas pressionadas por juros elevados, aumento dos custos e baixa rentabilidade passaram a negociar com valuations considerados atrativos, abrindo espaço para um aumento das operações de fusões e aquisições (M&A).

 

Segundo análise da Fortezza Partners, especializada em fusões e aquisições, apesar da expectativa de melhora dos resultados das empresas em 2026, o mercado ainda não incorporou essa recuperação aos preços dos ativos. Isso faz com que os múltiplos de negociação estejam em patamares considerados baixos para investidores estratégicos.

 

“É um bom ponto de entrada para quem quer comprar empresas”, afirmou Denis Morante, sócio da Fortezza Partners, em entrevista à CNN.

 

A consultoria cita como exemplo o segmento de grãos e derivados, cujo múltiplo projetado cai de 13 vezes o Ebitda para 6,4 vezes. Em insumos agrícolas, a relação passa de 10,7 para 5,8 vezes. No setor de bioenergia, o múltiplo recua de 4,8 para 3,7 vezes. A redução não significa perda de rentabilidade futura, mas sim que o mercado continua cauteloso diante do cenário macroeconômico.

 

Segundo Morante, fatores como juros ainda elevados, incertezas geopolíticas, risco climático associado ao El Niño e a volatilidade nos preços das commodities impedem que os ativos recuperem os níveis de valuation observados no período pós-pandemia.

 

O desconto dos ativos também aparece na B3. Enquanto o CDI rendeu cerca de 15% no período de 12 meses até maio de 2026, as empresas de insumos agrícolas perderam 34% do valor de mercado, e as companhias do setor sucroenergético recuaram 6,4%. Apenas as empresas de grãos ficaram praticamente estáveis, com alta de 1,2%

 

Compradores terão de escolher bem

 

Apesar das oportunidades, o executivo ressalta que nem todos terão capacidade financeira para aproveitar esse momento. O número recorde de recuperações judiciais no agronegócio aumenta a oferta de ativos à venda. Por outro lado, o custo elevado do crédito limita o número de compradores capazes de financiar aquisições.

 

Na avaliação dele, as operações podem ocorrer por meio de estruturas alternativas, como troca de ações (stock swap) e mecanismos de earn-out, reduzindo a necessidade de desembolso imediato de caixa.

 

“Nem todo mundo tem dinheiro à disposição barato e a prazos longos para fazer essas aquisições, mas ainda assim eu acredito que possa haver criatividade de fazer algum movimento com troca de ações, que aí você sai desse problema de captação.”

 

Cooperativas e estrangeiros podem liderar aquisições

 

Entre os potenciais compradores, Morante destaca dois grupos: cooperativas e investidores estrangeiros.

 

Segundo ele, as cooperativas chegam ao atual ciclo com estruturas de capital mais sólidas e menor nível de alavancagem, o que pode facilitar aquisições de empresas em dificuldades financeiras.

 

Já investidores internacionais, especialmente chineses, continuam demonstrando interesse pelo agronegócio brasileiro, impulsionados pela importância estratégica do país na produção mundial de alimentos.

 

Alguns segmentos já aceleram consolidação

 

Na avaliação da Fortezza Partners, alguns setores já apresentam maior movimentação de M&A. No sucroenergético, a Raízen vem realizando desinvestimentos, com venda de ativos para outros grupos do setor.

 

Outro destaque é a cadeia de ovos, que registrou diversas transações nos últimos 12 meses, envolvendo empresas como Granja Faria, Global Eggs e JBS.

 

O mercado de lácteos também passa por um processo de consolidação, com aquisições realizadas por empresas como Catupiry, Piracanjuba e pela cooperativa Aurora, refletindo o potencial do mercado doméstico brasileiro.

 

Apesar do ambiente favorável para compradores, Morante avalia que uma recuperação mais forte do mercado dependerá da redução do custo de capital e de maior previsibilidade econômica.

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