Durante seu discurso na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), nesta terça-feira (22), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendeu a guerra contra o Irã e sustentou que a pressão sobre os preços do petróleo é temporária.
Mas o desafio da inflação americana começou antes do conflito, e pode continuar depois dele.
A guerra agravou o problema. A alta do petróleo e as restrições à oferta de combustíveis encareceram o abastecimento nos Estados Unidos. No índice de preços de gastos com consumo pessoal, o PCE, o grupo de bens e serviços de energia acumulou alta de 15,3% em 12 meses.
Trump aposta em um acordo com o Irã depois das eleições de meio de mandato, em novembro. O fim do conflito poderia aliviar os combustíveis, mas não garantiria, por si só, o retorno da inflação à meta.
Mesmo quando alimentos e energia são retirados da conta, os preços seguem avançando acima de 2% ao ano. O núcleo do PCE, calculado pelo BEA (Bureau of Economic Analysis), acumulou alta de 3,3% nos 12 meses até julho.
O indicador ajuda a identificar pressões que vão além das oscilações desses produtos, embora também possa sofrer efeitos indiretos da guerra. Combustíveis mais caros, por exemplo, elevam os custos do transporte e podem chegar aos preços de outros bens e serviços.
O tamanho do problema é claro nas projeções dos participantes do FOMC, o comitê de política monetária do Federal Reserve. A mediana das estimativas aponta o PCE cheio em 3,7% neste ano, 2,3% em 2027 e 2,1% em 2028. O retorno a 2% aparece apenas em 2029. Em junho, a convergência era esperada para 2028.
A composição da inflação ajuda a explicar essa dificuldade. A pressão da moradia perdeu força, mas serviços fora desse grupo continuam com aumentos relevantes. Ao mesmo tempo, os bens voltaram a pressionar, com o repasse das tarifas de importação e o encarecimento de itens afetados pela expansão da inteligência artificial.
O que pode quebrar esse ciclo é o ganho de produtividade prometido pela inteligência artificial, mas ainda não há clareza sobre quando esse ganho será percebido pelas empresas e quais serão seus custos para a economia mundial.
Para o Brasil, a consequência mais imediata é o aumento da remuneração exigida para financiar empresas e governos. Os juros estruturalmente mais altos tornam os títulos dos Estados Unidos mais competitivos na disputa pelo dinheiro dos investidores.
O movimento de alta das taxas também aparece em outras economias. O Japão levou os juros ao maior nível em 31 anos, enquanto o Banco Central Europeu voltou a elevá-los. Os motivos e as condições de cada país diferem, mas o ambiente externo ficou mais difícil para quem depende de financiamento.
Por aqui, o diferencial de juros ainda nos favorece e garante a atração de investimentos. Tivemos Selic muito alta por muito tempo e já percebemos sinais de desaceleração da economia, o que faz com que sigamos na contramão do mundo no corte de juros. Essa proteção, porém, depende da percepção de risco da economia brasileira, que pode piorar com o agravamento dos problemas fiscais do país.
Se o rendimento oferecido lá fora subir e o Brasil passar a ser visto como mais arriscado, a entrada de capital financeiro pode perder força e o real pode se desvalorizar. Um dólar mais caro encarece produtos importados e insumos, pressiona a inflação e pode limitar o ritmo de queda dos juros brasileiros.
A normalização da oferta de energia, a redução de barreiras comerciais e os ganhos de produtividade poderiam aliviar esse quadro. Até lá, o risco para o Brasil é que a persistência da inflação mundial e o aumento gradual dos juros das principais economias prolonguem também o custo elevado do crédito por aqui, que trava o desenvolvimento de setores cruciais para o país.
















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