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MARIANA CAMINHA

Os que sempre estiveram na linha de frente

Foto: Mariana Caminha

Tecnologias, mercados, instrumentos financeiros, transições – tudo com nomes complexos, gráficos sofisticados e um certo ar de urgência. Uma urgência recente. Como se o problema tivesse começado ontem. Como se a solução ainda estivesse por vir.

 

Mas a verdade é que alguns de nós sempre estiveram na linha de frente.

 

Os povos indígenas – ou povos originários – representam cerca de 5% da população mundial. Ainda assim, são responsáveis por proteger algo em torno de 80% da biodiversidade do planeta. Os dados são das Nações Unidas. É um número que deveria nos constranger um pouco. Ou, no mínimo, nos fazer recalibrar o discurso.

 

No Brasil, cerca de 15% do território é demarcado como terra indígena. Há quem considere isso excessivo. “É como se eu, colonizador, chegasse na sua casa armado até os dentes e dissesse: descobri esse território, tudo é meu. Vou ser generoso e te deixar com o banheiro”, disse Caio Martins, especialista em cultura indígena e guia da Aldeia Multiétnica, na Chapada dos Veadeiros.

 

É preciso reconhecer, com seriedade, o papel dos povos indígenas na proteção do meio ambiente. E não se trata de romantizar. Não estamos falando de uma ideia abstrata de “sabedoria ancestral”, frequentemente tratada de forma folclórica. Estamos falando de tecnologia sofisticada, baseada em séculos de prática.

 

Sistemas agroflorestais, manejo do fogo, uso equilibrado da biodiversidade. Nada disso é novo. É conhecimento testado, refinado e transmitido ao longo de gerações. E funciona.

 

Na Amazônia brasileira, por exemplo, as taxas de desmatamento dentro de territórios indígenas são consistentemente menores do que fora deles. Em alguns casos, drasticamente menores, segundo dados do INPE. A floresta permanece de pé não por acaso, mas por decisão. Ainda que essa decisão nem sempre seja reconhecida como política pública.

 

É uma das maiores distorções do debate climático atual.

 

Falamos muito de inovação, mas pouco de reconhecimento. Discutimos financiamento climático, mas ainda direcionamos apenas uma fração mínima desses recursos para quem, na prática, já entrega resultados concretos.

 

A sabedoria indígena é a solução climática mais eficaz já existe – e está subfinanciada.

 

Territórios indígenas armazenam bilhões de toneladas de carbono. Protegê-los não é apenas uma questão de justiça histórica. É uma estratégia climática de alto impacto.

 

E, ainda assim, são territórios sob constante pressão. Povos indígenas seguem sendo, ao mesmo tempo, guardiões e alvos – da mineração ilegal, da expansão agrícola, dos conflitos fundiários.

 

Talvez por isso, qualquer transição climática séria passe, inevitavelmente, por uma escolha: incluir ou ignorar aqueles que já fazem parte da resposta.

 

No fim, a pergunta nunca foi se os povos indígenas têm um papel na proteção do meio ambiente. A pergunta é outra.

 

Estamos dispostos a reconhecer que, sem eles, essa proteção simplesmente não acontece?

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