A inclusão de produtores rurais no Desenrola 2.0 é um alívio relevante para agricultores familiares, especialmente os assentados da reforma agrária. A medida, no entanto, ocorre em um cenário de deterioração das condições financeiras no campo e levanta dúvidas sobre sua capacidade de resolver um problema considerado estrutural.
Anunciada nesta segunda-feira (4), a iniciativa amplia o acesso à renegociação de dívidas e busca destravar o crédito rural, em um momento de pressão crescente sobre os produtores.
Dados da Serasa Experian dão dimensão desse cenário. No terceiro trimestre de 2025, 8,3% da população rural estava inadimplente, com alta de 0,9 ponto percentual na comparação anual. A maior parte das dívidas está concentrada em instituições financeiras e acima de R$ 100 mil.
Em paralelo, o agronegócio registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025, avanço de cerca de 56% em relação ao ano anterior e o maior nível da série histórica. Desse total, 853 pedidos partiram de produtores pessoa física, mostrou a Serasa.
A nova fase do Desenrola Rural segue os moldes do lançamento do programa de 2024 e permite a renegociação ou liquidação de débitos de agricultores familiares e cooperativas, com foco em dívidas do crédito rural e da dívida ativa da União.
O objetivo central é permitir a regularização desses produtores e viabilizar o retorno ao crédito, especialmente no âmbito do Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).
A grande novidade desta vez é a possibilidade de contratação de novo crédito mesmo por produtores que estavam inadimplentes em operações anteriores com risco da União — uma mudança relevante, já que antes esses produtores ficavam impedidos de acessar novas linhas enquanto não regularizassem suas dívidas.
Apesar do alívio imediato, especialistas avaliam que a medida não resolve as causas do aumento do endividamento no campo. Para o advogado e especialista em direito empresarial e recuperação judicial Filipe Denki, o avanço da inadimplência reflete um problema estrutural.
“A inadimplência no agro não é pontual, ela é estrutural e tende a crescer se não houver ajustes no modelo de crédito. Hoje, o produtor rural enfrenta um ambiente de compressão de margens e, ao mesmo tempo, um sistema financeiro que ainda opera com rigidez incompatível com os ciclos do agronegócio”, afirmou.
Segundo ele, a concentração das dívidas no sistema financeiro indica falta de instrumentos adequados de reestruturação.
“Sem mecanismos mais adequados de reestruturação e alongamento de dívida, o risco é de aumento relevante de crises financeiras no setor nos próximos ciclos”, disse.
Mesmo com o potencial de alcance, há preocupação com a forma como os produtores vão aderir ao programa. O principal alerta é de que a renegociação não representa perdão da dívida e exige atenção às condições contratuais, especialmente para evitar a perda de benefícios do crédito rural, como taxas subsidiadas.
Para o advogado especializado em reestruturação empresarial Jansonn Mendonça Batista, o risco é de que o programa funcione apenas como um alívio temporário.
“A inclusão do produtor rural no Desenrola 2.0 e a ampliação de prazos são medidas relevantes, mas não são soluções definitivas. Embora ofereçam alívio imediato, o cenário de inadimplência no campo revela uma deterioração mais ampla do ambiente financeiro, impulsionada pela compressão de margens e pela volatilidade de custos. Sem enfrentar a raiz do problema, tais iniciativas tendem a apenas postergar um ajuste inevitável na estrutura de capital do setor”, afirmou.
Segundo ele, o desafio vai além da renegociação. “O desafio não é apenas alongar passivos, mas reequilibrar o endividamento com a real capacidade de geração de caixa. A efetividade dessas medidas depende de um diagnóstico técnico rigoroso, que envolva a adequação do perfil da dívida ao ciclo da atividade e a profissionalização da governança financeira. Sem esse ajuste, a dilação de prazos tende a perpetuar níveis insustentáveis de alavancagem”, disse.
O especialista também aponta risco de acúmulo de passivos. “Há um risco real de “represamento” de dívidas, em que prorrogações sucessivas, sem análise de viabilidade, geram um efeito cumulativo perigoso para o mercado de crédito rural”, frisou.
Mesmo assim, na avaliação do head de agronegócio da Serasa Experian, Marcelo Pimenta, a retomada do programa pode ampliar significativamente o alcance da renegociação.
“Iniciativas que ampliam o acesso à informação e ao crédito sustentável fortalecem toda a cadeia agro. Nesse cenário, entendemos que a retomada da medida, que no último ano alcançou cerca de 500 mil produtores rurais, tem potencial para mais que dobrar seu impacto ao viabilizar a renegociação de dívidas e ampliar o alcance junto à agricultura familiar”, afirma.
No campo político, o próprio governo e o Congresso já discutem alternativas mais estruturais para o endividamento do setor. A proposta apresentada pela equipe econômica para renegociação de dívidas do agro, que pode alcançar cerca de R$ 81,6 bilhões, ainda está em debate no Senado.
Recentemente após uma conversa com o ministro da Fazenda, Dario Durigan, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) afirmou que o modelo “precisa de ajustes” e que grupos de trabalho serão criados para construir uma solução conjunta entre governo e Congresso. O objetivo é conciliar a proposta do Executivo com o PL 5122, que trata da securitização de dívidas rurais.
A expectativa é que Legislativo e Executivo cheguem a um consenso para ter o modelo a tempo do lançamento do Plano Safra do próximo ciclo.















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