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MARCOS MAGALHÃES

Imagem do Brasil estará em jogo nas eleições

Foto: Magnific

A escassa vantagem nas pesquisas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, manterá por dois meses um duplo suspense. O primeiro é mais simples: Lula conseguirá seu lugar na História ao obter o quarto mandato? O segundo abre o leque: que efeito terão as eleições brasileiras no novo cenário mundial?

 

Assim como há quatro anos, provavelmente ficaremos grudados às telas de televisão na noite de 25 de outubro, data marcada para o segundo turno das eleições. Os índices das pesquisas vão subir e descer até lá. O resultado que vale parece cada vez mais difícil de prever.

 

A incerteza tem menos a ver com o entusiasmo dos eleitores com seus candidatos do que com a antipatia que nutrem pelo candidato adversário. Os altos índices de rejeição de Lula e de Flávio Bolsonaro, principal candidato da oposição, falam por si mesmos.

 

Na reta final, os eleitores mais independentes vão mais uma vez pelo caminho menos agradável: como evitar a vitória daquele que mais rejeitam?

 

Dá para imaginar com certa clareza as consequências internas de uma reeleição. A vitória de Lula manteria rumo já conhecido, de busca de crescimento com redução de desigualdades sociais. Além da defesa da democracia.

 

A vitória da oposição agradaria muito a quem não quer mais ver Lula por perto. Mas nem mesmo esses eleitores seriam capazes de descrever com clareza o que viria pela frente. O governo errante e autoritário do pai de Flávio indica a dimensão do risco.

 

Se o sobrenome Bolsonaro sair vitorioso, a instabilidade interna já estará contratada. Será um governo de grandes embates com o Poder Judiciário e de novos esforços para desmontar uma rede de salvaguardas sociais e ambientais que acaba de ser remontada.

 

Se a frente interna já indica instabilidade, na frente externa já é possível apontar, com bom nível de certeza, o caminho do novo governo: um alinhamento total e automático com os Estados Unidos de Donald Trump – e com Israel de Benjamin Netanyahu.

 

A quem alimenta dúvida sobre isso, recomenda-se prestar atenção às recentes e futuras declarações de Flávio sobre política externa. E às bandeiras que estarão presentes nas manifestações de seus simpatizantes.

 

A vitória de um Bolsonaro ajudaria Trump a completar o trabalho de desenhar o continente à sua imagem e semelhança.

 

Na América do Sul restaria, à esquerda, o solitário Uruguai. O presidente dos Estados Unidos acaba de publicar em sua rede social um mapa que mostra a Venezuela como 51º estado americano. Como ele desenhará o resto do mapa?

 

A reeleição de Lula, por outro lado, manteria o Brasil livre de alianças automáticas. Se o presidente tende a manter proximidade com a China e países do Sul Global, provavelmente também buscará manter boas relações com as principais potências ocidentais. Até mesmo com os Estados Unidos, apesar das tarifas e da má vontade de Washington.

 

O Brasil não tem peso econômico ou militar para exercer influência decisiva na construção ainda cambaleante de uma nova ordem global, depois da desmontagem promovida por Trump dos alicerces da ordem liberal que havia sido liderada por seu próprio país.

 

Existe, porém, algo de simbólico em jogo. Uma vitória de Lula significaria um contraponto ao desejo de Trump de fazer da América Latina mais uma vez o quintal comportado dos Estados Unidos. Também soaria como freio à expansão global da extrema direita.

 

Embora não seja uma grande potência, o Brasil apresenta ao mundo a imagem de um país tolerante, pacífico, democrático e – pelo menos por enquanto – defensor do meio ambiente. A atual gestão ajuda a ampliar o soft power brasileiro e a mostrar que existem alternativas a líderes populistas e autoritários.

 

A vitória da oposição colocaria em risco a simpatia conquistada pelo Brasil junto ao resto do mundo. Basta lembrar que nenhum líder global relevante pôs os pés em Brasília de 2023 a 2026. Não terá sido uma coincidência.

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