A eleição presidencial de 2026 pode ser decidida por uma parcela relativamente pequena do eleitorado brasileiro: os chamados eleitores independentes. Mais do que mobilizar suas bases ideológicas já consolidadas, Lula e Flávio Bolsonaro disputam hoje um segmento menor numericamente, mas decisivo em cenários de forte polarização.
Trata-se do contingente constituído pelos chamados “eleitores pêndulos”, ou “swing voters”, segundo a definição da ciência política. É um contingente com algo em torno de 10% dos eleitores, mas sua importância decorre da divisão do país praticamente ao meio desde que se instalou o clima de nós contra eles.
Esse fenômeno fez com que parte substantiva dos brasileiros definisse seu voto por um sentimento de pertencimento a um dos polos: ou ao lulismo ou ao bolsonarismo. Autor do livro “Um País Dividido”, a ser lançado em junho, o cientista político Jairo Nicolau levanta a hipótese de que essa divisão entre duas metades inconciliáveis perderá tração a partir de 2030, quando as figuras de Lula e Bolsonaro já não estarão no cenário político.
Apesar dessa perspectiva de longo prazo, a eleição de 2026 ainda deverá ocorrer sob os efeitos diretos da polarização. Isso aumenta a importância do eleitor sem identidade com qualquer um dos dois campos políticos. Compreender o comportamento desse segmento tornou-se prioridade para estrategistas eleitorais e especialistas em pesquisas qualitativas.
As “qualis” indicam que o eleitor independente tem perfil essencialmente pragmático: é menos ideológico e mais sensível à percepção de estabilidade institucional, competência administrativa e moderação política. Questões concretas, como inflação, segurança pública, emprego e renda, pesam mais em suas decisões do que disputas identitárias ou debates doutrinários.
Tradicionalmente, esse eleitor buscava candidaturas de centro. Trata-se, em geral, de um público menos engajado politicamente, disposto a migrar conforme o contexto econômico, o desempenho do governo, o carisma dos candidatos e o ambiente político do momento. Radicalizações costumam provocar desconforto, não importando sua origem ideológica. Nas duas últimas eleições, porém, a ausência de alternativas competitivas de centro empurrou esse segmento, no segundo turno, para um voto defensivo, guiado pela lógica de “evitar o mal maior”.
Foi o que ocorreu em 2018. O eleitor independente aderiu majoritariamente à candidatura de Jair Bolsonaro, impulsionado pela combinação de crise econômica, desgaste moral do sistema político e forte sentimento antipetista. A recessão do segundo governo Dilma Rousseff e os escândalos revelados pela Operação Lava Jato corroeram profundamente a imagem do Partido dos Trabalhadores.
Para muitos eleitores moderados, o PT passou a simbolizar corrupção sistêmica, esgotamento institucional e a deterioração do modelo de presidencialismo baseado em ampla distribuição de cargos e alianças de interesse. Também pesaram a rejeição à política tradicional e o desconforto com a radicalização de pautas identitárias percebidas como distantes dos valores conservadores da maioria da sociedade.
Mas interpretar esse voto como adesão ideológica ao bolsonarismo revelou-se um erro que parte do mundo político cometeu ao longo dos anos seguintes. O apoio a Bolsonaro em 2018 foi, em grande medida, circunstancial: um voto movido pela rejeição ao PT, pela demanda por ordem e pela percepção de colapso do sistema político.
Esse diagnóstico ajuda a entender o movimento inverso ocorrido em 2022. Diante do crescimento do antibolsonarismo, o eleitor independente migrou majoritariamente para Lula, sobretudo no segundo turno. Pesaram o ambiente de confronto permanente durante o governo Bolsonaro, as tensões institucionais e a percepção de caos governamental em áreas sensíveis, como a Saúde, durante a pandemia.
Para um eleitorado de perfil moderado, a prioridade passou a ser a reconstrução da estabilidade política e institucional. A eleição transformou-se, para muitos, em uma escolha entre a continuidade da tensão e o retorno à normalidade democrática.
Assim, Lula conseguiu apresentar-se menos como líder ideológico de esquerda e mais como símbolo de pacificação. A presença de Geraldo Alckmin na chapa reforçou a expectativa de um governo conciliador, expectativa que, segundo avaliações qualitativas, teria perdido força ao longo de seu terceiro mandato, com a realização de um governo “puro-sangue”, em vez do prometido governo de frente ampla.
Mais uma vez, porém, seria equivocado interpretar o voto independente de 2022 como adesão plena ao lulismo. Também naquele momento prevaleceu o voto defensivo, orientado pela tentativa de evitar o que esse eleitorado considerava um risco maior.
Agora, em um ambiente menos dramático do que o de 2022, o eleitor pendulo parece mais exigente. As pesquisas qualitativas indicam que esse segmento avalia os dois principais campos políticos com maior frieza e menor envolvimento emocional.
No caso de Lula, as pesquisas apontam dificuldades para superar a sensação de desgaste. Entre eleitores moderados, cresce a percepção de que o terceiro mandato não entregou a melhora econômica esperada, especialmente em relação ao poder de compra da classe média e dos trabalhadores.
O desafio do presidente não é apenas combater a fadiga eleitoral. Como observou o diretor de risco da AtlasIntel, Yuri Sanches, o governo precisa desfazer a impressão de repetição e convencer esse eleitor de que ainda é capaz de oferecer renovação e resultados concretos.
A dificuldade pode aumentar caso a campanha adote um discurso mais ideológico, baseado na contraposição entre pobres e ricos ou entre soberania nacional e entreguismo econômico, linha que parte dos analistas políticos já identifica como tendência na coordenação da campanha do PT. Uma guinada mais à esquerda tende a gerar resistência justamente entre os eleitores moderados e pragmáticos.
Do outro lado, Flávio Bolsonaro enfrenta desafio semelhante. Seus estrategistas tentam consolidar a imagem de um candidato mais equilibrado que o pai, capaz de dialogar além da base ideológica tradicional do bolsonarismo. Até agora, porém, ele ainda não conseguiu apresentar uma agenda clara voltada para o futuro nem propostas capazes de mobilizar os eleitores independentes em torno de temas concretos, como crescimento econômico, segurança pública e melhora das condições de vida.
Além disso, Lula e Flávio carregam vulnerabilidades em um tema particularmente sensível para o eleitor pendulo: a honestidade. Nas pesquisas qualitativas, Lula continua associado aos escândalos do “mensalão” e do “petrolão”. Flávio enfrenta o desgaste provocado por acusações de enriquecimento ilícito e, mais recentemente, pelas repercussões caso Master. Caso que, por sinal, também envolve a base de Lula.
Sem projetos capazes de apontar para o futuro, há o risco de que a disputa presidencial se transforme novamente em uma eleição definida mais pela rejeição do que pela crença. O mesmo eleitor independente que deu a vitória apertada a Lula em 2022, por diferença inferior a 2% dos votos, pode voltar a ser empurrado para uma escolha defensiva entre o desgaste do atual governo e a memória turbulenta dos anos Bolsonaro.
Nesse cenário, a disputa tende a ser menos ideológica do que emocional e pragmática. Vencerá quem conseguir transmitir maior sensação de estabilidade, moderação, previsibilidade e capacidade de governar sem aprofundar ainda mais a divisão nacional.
O paradoxo é que justamente o eleitor menos ideológico pode voltar a exercer papel decisivo sem se sentir de fato representado por nenhum dos polos. Se isso ocorrer, a eleição de 2026 será definida mais uma vez pela escolha daquele que pareça oferecer menos riscos.
*Hubert Alquéres é presidente da Academia Paulista de Educação.
















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