Na política, nem toda mudança de rota significa mudança de destino. Às vezes, o caminho faz uma curva e acaba levando ao mesmo lugar. O PL acreano parece viver exatamente assim.
No início da pré-campanha, o senador Marcio Bittar, principal liderança do partido no estado, estimulou a candidatura de Tião Bocalom ao governo. O prefeito de Rio Branco aceitou a ideia e passou a trabalhar esse projeto de forma aberta. O cenário, porém, começou a mudar quando Gladson Cameli ainda era considerado candidato natural ao Senado. Popular nas pesquisas, o governador era visto como um ativo eleitoral valioso, e Bittar havia construído um entendimento para dividir com ele a chapa ao Senado. A partir daí, a candidatura de Bocalom ao governo deixou de fazer sentido para o PL.
A solução encontrada foi conhecida. Para manter vivo o projeto de disputar o governo, Bocalom deixou o PL e se filiou ao PSDB. O PL assim preservava o acordo costurado por Bittar com o grupo de Gladson e Mailza Assis, enquanto o prefeito seguia outro caminho. Era um rearranjo que parecia definitivo.
Mas a política tem pouca intimidade com a palavra “definitivo”.
Quando Gladson começou a se complicar em sua situação eleitoral na disputa para o Senado, consequência da sua batalha judicial, o acordo que havia aproximado Bittar do Palácio Rio Branco perdeu parte da razão de existir. Nos bastidores, começou a circular a possibilidade de o senador se aproximar de Alan Rick, hipótese que esfriou depois de novos entendimentos entre Bittar, Gladson e Mailza. O ambiente voltou a indicar que todos estariam no mesmo palanque.
Agora, o cenário voltou a mudar. As negociações nacionais entre PL e Republicanos, conduzidas de olho nas eleições presidenciais e nos governos estaduais, abriram espaço para que essa conversa reaparecesse também no Acre. Se a composição avançar nacionalmente, o reflexo pode chegar no Acre, aproximando novamente Marcio Bittar e Alan Rick.
É comum olhar para esse tipo de movimento como uma sequência de idas e vindas. Mas existe outra forma de enxergar a situação.
O sociólogo alemão Norbert Elias, um dos principais estudiosos das relações de poder, explicava que ninguém atua isoladamente. Cada decisão depende das escolhas feitas pelos outros participantes da mesma rede. Quando um ator muda de posição, todos os demais precisam recalcular seus próprios movimentos. O comportamento do PL parece ilustrar bem essa lógica.
Em nenhum momento o partido deixou de perseguir um objetivo central, reeleger Bittar. O que mudou foram as circunstâncias. Primeiro havia uma composição construída em torno da força eleitoral de Gladson Cameli. Depois esse cenário sofreu uma ruptura. Agora surge uma negociação nacional que pode alterar novamente o desenho local. A estratégia precisou acompanhar essas mudanças.
Isso ajuda a entender por que o debate não deve ser reduzido a uma suposta incoerência do PL. A política brasileira funciona em diferentes níveis ao mesmo tempo. Há interesses municipais, estaduais e nacionais convivendo na mesma mesa. Nem sempre eles apontam para a mesma direção. Quando um acordo nacional muda, é comum que os estados revisem seus próprios alinhamentos.
As convenções ainda estão pela frente e muita coisa pode acontecer até lá. Mas uma impressão já dá pra ter, a de que o PL e Bittar passaram os últimos meses parecendo mudar de direção o tempo todo. Observando com mais atenção, talvez estivesse apenas procurando o caminho que oferecesse melhores condições para chegar ao mesmo objetivo de sempre, disputar o poder com melhores condições.a
















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