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Para além do varejo, crise de reestruturações contamina demais setores

Foto: Ilustração gerada por IA

Em 16 de agosto, o Grupo Casas Bahia pediu recuperação judicial para reestruturar R$ 17,3 bilhões em dívidas, dias depois de anunciar prejuízo líquido no segundo trimestre. No mesmo fim de semana, a Marabraz seguiu o mesmo caminho. Os pedidos revelam uma crise instalada no setor varejista e no modelo de negócio dessas empresas.

 

A operação do comércio, categoria que responde por 21,7% das empresas em recuperação judicial no país, segundo a Serasa Experian, é baseada em lojas físicas, estoques elevados, margens apertadas e forte dependência de crédito, fatores que tornaram o setor especialmente vulnerável a juros altos e consumo mais fraco.

 

“São empresas que não se renovaram e perderam espaço para o comércio eletrônico, porque hoje o consumidor encontra preço e conveniência na internet. Existe uma transformação do próprio modelo de negócio”, afirma Salvatore Milanese, sócio da Pantalica Partners.

 

O grupo Casas Bahia já havia recorrido a uma recuperação extrajudicial em 2024, quando renegociou cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas, mas a reestruturação não foi suficiente para interromper a deterioração financeira.

 

Parte relevante desse problema passa também pelo chamado risco sacado, mecanismo usado para antecipar recebíveis de fornecedores e que, na prática, permite ao varejista financiar seu capital de giro por meio da cadeia de fornecedores — uma solução que sustenta a operação no curto prazo, mas pode esconder uma dependência maior de crédito e aumentar a pressão sobre o balanço quando as condições financeiras pioram.

 

A restrição maior à concessão de crédito depois do escândalo da Americanas também reforçou a dificuldade das empresas de financiar suas operações.

 

No caso das Casas Bahia, segundo apuração da CNN, a possibilidade de recorrer a uma recuperação judicial já havia sido recomendada por uma consultoria há cerca de três anos.

 

As duas se juntam a gigantes do varejo como o GPA, que protocolou recuperação extrajudicial em março para renegociar R$ 4,5 bilhões, e o grupo que controla a Tok&Stok.

 

O aspecto relevante não é o tamanho das dívidas, mas o fato de elas terem deixado de ser exceções.

 

A recuperação judicial no Brasil deixou de ser o desfecho de escândalos corporativos, tão gigantescos quanto isolados — Odebrecht, Oi, Americanas —, para se tornar parte da mecânica normal do ciclo de crédito. “Não é um movimento novo e não está restrito ao varejo”, afirma Alexandre Pierantoni, head de Investment Banking da Kroll para América Latina e Brasil.

 

“Hoje a gente fala muito do varejo, mas, antes, falávamos do agronegócio. Depois vieram a indústria e outros setores. É um movimento em que os problemas vão se somando e atingindo diferentes segmentos da economia”, diz.

 

Dados da Serasa Experian mostram um país que se acomodou em nível alto de estresse. Em 2025 foram 977 processos de recuperação judicial abertos, o maior volume desde 2016, envolvendo 2.466 CNPJs, alta de 13% em relação a 2024.

 

O problema aparece nas estatísticas de insucesso. A recuperação judicial no Brasil ainda é buscada tarde, apenas como último recurso, não como ferramenta preventiva de reorganização. Um levantamento do Monitor RGF indica que a proporção de empresas que concluem a recuperação e ainda assim vão à falência subiu para cerca de duas em cada cinco, contra uma em cada dez um ano antes.

 

O instrumento está sendo mais acionado e funcionando menos.

 

E não é para todos.

 

“As pequenas empresas muitas vezes não entram em recuperação judicial. Elas simplesmente fecham. A recuperação judicial consegue criar mecanismos para solucionar problemas de empresas maiores, mas uma parcela relevante das pequenas empresas não é abarcada por esse processo”, diz Pierantoni.

 

“Como não há um crescimento mais robusto da economia e da renda, apesar do desemprego baixo, o custo de capital para as empresas hoje está em torno de 15%. Falta previsibilidade, a inadimplência aumentou, os juros estão altos e a população está com menos recursos para pagar suas dívidas. É um ciclo que não é virtuoso”, afirma.

 

Parte do fenômeno, porém, é efeito colateral do amadurecimento do próprio mercado.

 

“O que a gente está vendo é uma espécie de dor de crescimento de um mercado que se profissionalizou muito nos últimos 30 anos. O empresário brasileiro se internacionalizou, passou a acessar recursos, produtos financeiros e mercados no exterior, inclusive captando em dólar”, observa Milanese.

 

Parte do volume de reestruturações, é verdade, se explica pelo remédio ter ficado melhor. A nova Lei de Falências, sancionada em dezembro de 2020, garantiu segurança jurídica às empresas e impulsionou os pedidos de recuperação extrajudicial no país.

 

A legislação garantiu prioridade de recebimento para quem injeta dinheiro novo na empresa em crise, estendeu o stay period — a suspensão das execuções — à recuperação extrajudicial e derrubou o quórum de homologação do plano extrajudicial de três quintos para maioria simples dos créditos de cada espécie, admitindo o protocolo com apenas um terço de adesão e 90 dias para completar o resto.

 

Segundo o Observatório Brasileiro de Recuperação Extrajudicial, o país registrava uma média de 3,5 recuperações extrajudiciais por ano entre 2006 e 2019; foram 84 pedidos em 2025.

 

Para além do novo arcabouço legal, o ponto de virada veio quando a era do dinheiro barato venceu, assunto sobre o qual este blog já tratou. “Tivemos uma época em que usinas e empresas de médio porte, por exemplo, captaram milhões lá fora, emitiram bonds, e depois algumas não conseguiram pagar e entraram em default ou recuperação judicial”, diz.

 

Empresas que captaram a juros baixos durante a pandemia chegaram ao vencimento sob outro regime.

 

“Os bancos alongaram dívidas para dar fôlego às companhias, mas essas dívidas começaram a vencer”, diz Milanese. “E aí você tem juros altos por muito tempo, o chamado muro da dívida aumentando, porque é juro composto, é juros sobre juros. A empresa chega ao vencimento sem conseguir pagar e, ao mesmo tempo, não consegue fazer uma nova captação”, desenvolve ele.

 

A conta não recai apenas sobre o sistema financeiro. “O sistema bancário brasileiro é muito dinâmico e proativo. Ele oferece produtos adequados para as empresas, mas esses produtos são caros”, pondera Milanese.

 

Segundo levantamento da Pantalica Partners, o spread cobrado sobre o CDI pode chegar a 5 pontos percentuais, e a empresa acaba pagando 19% ao ano ou mais — contra uma Selic hoje em 14%.

 

As instituições financeiras precificam um histórico de fraudes e recuperações, e, para Milanese, reduzir o spread bancário no Brasil passa também por melhorar a percepção de risco sobre o próprio sistema empresarial.

 

Se o varejo está claudicante, há fatores setoriais que, acoplados ao cenário macroeconômico, ajudam a diagnosticar um mercado doente de forma sistêmica.

 

Agronegócio

 

Com 30,1% das empresas em recuperação judicial em 2025, segundo a Serasa Experian, o agronegócio é um exemplo claro de um paciente em estágio de agravamento de sua doença.

 

Em 2012, o setor respondia por 1,3% das recuperações judiciais.

 

Hoje lidera a estatística, seguido de perto por serviços. Se, do ponto de vista macroeconômico, é fácil enumerar as exposições do setor ao risco — insumos dolarizados, risco climático, ciclo financeiro longo entre safra e entressafra e queda de preços internacionais —, há fatores culturais que aprofundam a questão.

 

“Muitas empresas não fazem provisão adequada, não têm controle suficiente de rentabilidade, não fazem uma análise de risco compatível com a volatilidade do setor e acabam ficando excessivamente expostas ao preço das commodities”, diz Milanese.

 

Construção civil

 

O cenário para a construção civil também encontra coro na disparada da Selic. Uma construtora que lançou um prédio em 2021, com a Selic em 2%, entregou a obra sob uma taxa que ficou em 15% de junho de 2025 até março deste ano, segundo o Banco Central. No caminho, viu o custo da mão de obra subir 8,82% em doze meses, mais que o dobro da inflação oficial de 4,14%, de acordo com a CBIC.

 

Some-se a isso o canteiro: 94% das construtoras relatavam escassez de trabalhadores e 76% refaziam cronogramas por falta de gente, também segundo a entidade.

 

Na ponta do contrato, o comprador que assinou na planta chegou às chaves dentro de um país em que 82% das famílias estão endividadas — recorde da série da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, da CNC — e onde 38,5% das que ganham até três salários mínimos já não pagam o que devem.

 

Os distratos somaram 5.763 unidades no primeiro trimestre, alta de 41%, segundo o indicador Abrainc/Fipe. Em recorte diferente do da Serasa, o Monitor RGF aponta que a construção civil responde hoje por 80% das recuperações judiciais do setor de infraestrutura.

 

Serviços

 

Setor de maior peso na ocupação do país, serviços responde por 30% das empresas em recuperação judicial em 2025, segundo a Serasa Experian, e perdeu em julho o papel de anteparo da economia.

 

De acordo com a S&P Global, o PMI de serviços caiu de 51,3 para 49,7 pontos, primeira retração em nove meses, com as empresas citando adiamento de projetos, retração da demanda e dificuldades financeiras dos clientes. O volume de novos negócios recuou no ritmo mais forte em dez meses.

 

Não é a primeira vez.

 

Em julho de 2025, ainda segundo a S&P Global, o PMI de serviços despencou a 46,3 pontos e arrastou o índice composto do setor privado para 46,6 — a contração mais aguda desde o início de 2021, com o emprego caindo pela primeira vez em quase dois anos e meio.
Indústria

 

A indústria conta a mesma história. Segundo a S&P Global, o PMI industrial caiu a 47,5 pontos em julho, ante 50,8 em junho — a contração mais intensa em cinco meses, com os novos pedidos registrando a maior queda em mais de três anos. Foram onze meses consecutivos abaixo da linha dos 50 pontos que separa expansão de retração até março, quando o índice esboçou dois breves respiros, em abril e junho, antes de recair.

 

De acordo com a CNI, o faturamento da indústria fechou o primeiro semestre 1% abaixo do mesmo período de 2025, e a utilização da capacidade instalada caiu para 76,8% em junho.

 

No mesmo mês, segundo o IBGE, a produção industrial recuou 1,8%, atingindo as quatro grandes categorias econômicas.

 

Em consulta da CNI realizada em julho com 191 empresas, 39% previam aumento da dívida bancária nos três meses seguintes, 53% pretendiam recorrer mais ao crédito para pagar contas correntes e 58% projetavam redução da margem líquida.

 

O escritor Honoré de Balzac (1799-1850) passou sua vida fugindo de credores e, em 1837, publicou César Birotteau, a história de um perfumista parisiense arruinado. Com um estilo de vida marcado por excessos, o escritor perdeu dinheiro, precisou de crédito para sobreviver e encontrou as portas dos bancos fechadas para alguém como ele.

 

Escrito por quem conhecia o roteiro por dentro, o livro trata sobre um perfumista honesto e vaidoso que recebe a Legião de Honra — a comenda criada por Napoleão Bonaparte, que Birotteau ganha justamente por ter lutado contra Napoleão, cortesia da Restauração —, dá um baile para comemorar a láurea e, no mesmo impulso de ascensão, entra numa especulação com terrenos na belíssima Madeleine. O tabelião que intermediava o negócio foge com o dinheiro. Birotteau fica com o compromisso e sem caixa.

 

Resumindo: Birotteau, enfim, inicia sua peregrinação atrás de desconto de letras, banco a banco, porta a porta, cada uma uma cena de análise de risco. Ele quebra, passa anos pagando os credores integralmente, é reabilitado em cerimônia pública e morre de emoção.

 

Na Paris de Balzac, o perfumista Birotteau passou de banco em banco implorando por crédito, e a peregrinação rendeu um romance. No Brasil de 2026, rende uma linha na planilha da Serasa Experian.

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